Niassa está a atravessar uma crise silenciosa que grita por ajuda. No distrito de Mecanhelas, norte de Moçambique, a fome chegou a níveis desesperadores. Em pleno século XXI, famílias inteiras têm recorrido ao improvável: moer capim, semelhante ao trigo, para obter algo que possam ingerir e enganar o estômago vazio.
A denúncia foi feita pela irmã Ermelinda Emílio Singua, superiora das Irmãs da Imaculada Conceição, que relata uma realidade quase inimaginável. “Este ano, a população teve de apanhar capim, pô-lo a moer na pedra para conseguir comer alguma coisa. Isto é o extremo da pobreza”, declarou em entrevista comovente à Fundação AIS (Ajuda à Igreja que Sofre).
Segundo a religiosa, há lares onde se passa uma a duas semanas sem qualquer tipo de refeição adequada. A escassez de alimentos agrava-se entre os meses de Outubro e Novembro, altura em que a seca assola a região e deixa a agricultura de subsistência, já precária, completamente estéril.

“Quem não tem dinheiro, não tem comida”, lamenta a irmã Ermelinda, sublinhando a total dependência das comunidades rurais em relação ao clima. E quando este falha, a fome instala-se com força implacável.
A crise alimentar em Mecanhelas é apenas um reflexo de uma realidade mais vasta e cruel. A religiosa denuncia também o drama dos deslocados, os casamentos forçados entre adolescentes, o abandono de crianças órfãs e as limitações do acesso à saúde. Apesar do cenário sombrio, missionários e voluntários continuam a ser um pilar de esperança para as populações esquecidas pelo mundo.
Enquanto as ajudas internacionais se concentram noutras crises, o grito silencioso de Mecanhelas ecoa, aguardando uma resposta humanitária urgente.




