O eco da violência em Cabo Delgado já não se restringe ao som distante das armas. Agora, é um grito de alerta que reverbera nas palavras do presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), Lutero Simango, que, em Maputo, traçou um cenário preocupante: se o conflito continuar por mais três, quatro ou cinco anos, os grupos armados podem adquirir uma agenda política própria, transformando a insurgência num problema ainda mais intrincado para o país.
Falando à margem de um encontro entre partidos políticos e líderes religiosos, Simango foi direto: é urgente abrir “uma janela para o diálogo” com os insurgentes, não por fraqueza, mas por estratégia.
“A nossa inteligência nacional deve descobrir a verdadeira motivação destes indivíduos. Quem financia? Quem dá a retaguarda segura? Enquanto não tivermos essas respostas, estaremos apenas a combater a ponta visível do iceberg” — afirmou.
Desde outubro de 2017, Cabo Delgado vive sob a sombra de uma insurgência brutal, atribuída a grupos associados ao Estado Islâmico. O palco deste conflito é uma província rica em recursos naturais, sobretudo gás natural, um potencial económico que se transformou também em alvo estratégico para redes extremistas.
Mas o custo humano é devastador. Só entre 20 de julho e 3 de agosto de 2024, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de 57 mil pessoas — equivalentes a 13.343 famílias — foram obrigadas a abandonar as suas casas devido ao aumento dos ataques nos distritos de Muidumbe, Ancuabe e Chiúre.
As histórias são de partir o coração: mães a caminhar dias com crianças ao colo, idosos abandonando as suas hortas e pescadores largando as redes para fugir sem olhar para trás. O medo, invisível mas opressor, transformou-se no combustível da migração forçada.
Para Simango, a resposta ao terrorismo não pode depender apenas da ofensiva armada. É preciso reconstruir a confiança e criar condições de vida dignas para a população local.
“Qualquer movimento de guerrilha sobrevive quando encontra apoio na comunidade. Se queremos cortar esse apoio, precisamos garantir que as pessoas tenham segurança alimentar, saúde, educação e oportunidades de emprego”, reforçou.
Atualmente, o MDM é a quarta força política no Parlamento, governando apenas o município da Beira, mas tem usado a sua voz para defender políticas mais abrangentes e preventivas no combate à insurgência.
As preocupações do MDM encontram eco nas palavras do ministro da Defesa Nacional, Cristóvão Chume, que no final de julho reconheceu que os insurgentes estão a penetrar em zonas que antes eram consideradas seguras.
“Não estamos satisfeitos com a situação. Os terroristas têm conseguido atingir áreas distantes do centro de gravidade que identificámos”, admitiu Chume.
De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos de África, só em 2024 já morreram pelo menos 349 pessoas em ataques na província — um aumento de 36% em relação ao ano anterior. Cada número, no entanto, esconde uma história, uma família destruída, um futuro interrompido.
O receio de Simango é claro: quanto mais tempo o conflito durar, mais enraizado se tornará o movimento insurgente, não apenas como força armada, mas como um ator político paralelo, capaz de influenciar comunidades inteiras.
Se essa metamorfose ocorrer, o desafio de pacificação será muito mais complexo — exigindo não só diálogo, mas também diplomacia internacional e medidas de reconciliação de longo prazo.
No coração desta crise, está a urgência de uma decisão: continuar numa guerra sem fim previsível ou abrir caminhos para uma paz negociada, que devolva a Cabo Delgado não só a segurança, mas também a esperança.




