A gestão comunitária da água na vila de Boane, província de Maputo, está prestes a sofrer uma profunda reestruturação. Devido à incapacidade das comissões locais de assegurar o fornecimento regular e a manutenção das infraestruturas de abastecimento, o Governo municipal anunciou que os sistemas serão revertidos a favor do Fundo de Investimento e Património de Abastecimento de Água (FIPAG) — uma entidade pública especializada na gestão de água urbana.
Segundo a Rádio Moçambique, pelo menos seis comissões de gestão comunitária poderão perder o controlo sobre os sistemas que operam actualmente, por falharem reiteradamente na missão de garantir o acesso contínuo à água potável.
A presidente do Conselho Municipal de Boane, Geraldina Bonifácio, criticou duramente a má gestão e a falta de capacidade técnica das comissões.
“Não é admissível que, mesmo com os moradores a pagarem pelo consumo da água, muitos bairros só tenham fornecimento uma vez por semana”, lamentou, apontando que a falta de manutenção das infra-estruturas tem deixado milhares de cidadãos à mercê de soluções improvisadas, como a compra de água a baldes ou o recurso a fontes informais de origem duvidosa.
A situação, que se arrasta há meses, já é motivo de queixas constantes por parte da população, que vê o direito à água potável ser comprometido num contexto de crescimento urbano acelerado e mudanças climáticas que tornam o acesso à água ainda mais crítico.
FIPAG entra em cena para garantir regularidade
Com a reversão dos sistemas para o FIPAG, o município de Boane espera estabilizar o fornecimento de água, implementar planos de melhoria técnica e assegurar a manutenção preventiva e corretiva das infra-estruturas.
O FIPAG, com experiência consolidada em várias zonas urbanas e periurbanas do país, traz consigo equipas técnicas especializadas, recursos logísticos e canais de financiamento que as comissões locais não conseguiram mobilizar.
Apesar de ser uma medida técnica, a mudança pode ter repercussões sociais profundas. Para algumas comunidades, a gestão local representava também uma forma de empoderamento comunitário e participação cidadã. No entanto, a sua incapacidade operacional comprometeu a credibilidade desses modelos, que, segundo especialistas, necessitam de formação contínua, apoio institucional e maior fiscalização para serem sustentáveis.
Moradores dos bairros mais afectados — como Matola Rio, Benfica e Bairro 11 — acolheram a notícia com uma mistura de esperança e ceticismo.
O processo de reversão será feito gradualmente, com a realização de auditorias técnicas, levantamento de necessidades urgentes e integração dos activos existentes. A prioridade, segundo fontes do município, será garantir abastecimento diário de água, sobretudo nos bairros com histórico de maior irregularidade.
Enquanto isso, o município promete maior transparência no processo e envolvimento das comunidades nas futuras decisões sobre gestão participativa dos recursos hídricos.




